Para entreter-me durante uma viagem, o bom amigo C.L. deixou-me um livro de certo sucesso no Principado da Catalunha. Trata-se de Anarquisme i alliberament nacional, da editorial Virus. O volume recolhe diversos textos libertários que propõem uma síntese impossível entre o anarquismo e a luta pela independência dos Países Catalães. E digo o de impossível não porque estiver fechado a qualquer tipo de contributos que fortaleçam o independentismo no quadro ibérico, venham de onde vierem. Digo-o porque, em favor dos nossos interesses, os contributos devem ser-nos válidos, úteis para a luta. Temo-me que a obra dos anarco-indepes não vai neste caminho.Por um lado, existe uma crítica interessante do “estatalismo” do anarquismo espanhol do que subscrevo pontos e vírgulas. Com efeito, o internacionalismo dalguns “apátridas” detém-se suspeitosamente nos Pirineus e no campo de Gibraltar. A sua defesa dos subalternos com freqüência não vai acompanhada dum respeito pelas línguas subalternas à oficialidade espanhola. E assim por diante...
Por outro, chega o momento de atacar o “estatismo” dos independentistas. E a crítica é basicamente essa: aspiram a criar um estado. Sei que não devia surpreender-me, ao fim e ao cabo, são anarquistas. Porém propondo uma confederação livre para o quadro dos Países Catalães esquecem que o mundo, nesta altura quando menos, organiza-se em estados. Este é um detalhe que eu acho dalguma relevância.
Há mais. A visão do estado ou dos estados, sendo como são instituições complexamente suspeitosas, é unidimensional e caricaturesca. A escola é apenas um lugar para ingressar no sistema e adotar as suas pautas de condutas, os corpos repressivos apenas estão para manterem a ordem, a prisão e o manicômio apenas estão para enclausurarem dissidentes, etc. Ignoro que aparelhos alternativos ou instâncias impulsionará a sociedade futura para a socialização primária, não se especifica. Devo supor que nesta sociedade feliz, não será necessária qualquer política de segurança pública. Não será então necessárias as prisões onde na atualidade, para além dos chamados presos políticos, enclausuram presumíveis agressores sexuais, ladrões e criminosos que nunca poderiam passar pela categoria de “dissidentes”. Também não se sabe que alternativa se propõe. Como medida prévia, os anarquistas atirarão para baixo os muros dos presídios e já se verá.
É que, com bom critério, os anarquistas não querem “prometer o céu onde todo o mundo será feliz e bom”, recriminação que lançam aos marxistas comparando-os, no entanto, com o cristianismo. Não obstante, o céu anarquista assoma indiscreto nalgumas afirmações, como a proposta de organização social em base a federações sucessivas desde entidades populacionais menores até as maiores (o que seria isso senão um tipo de estado inclusivo?), ou quando se defende que “no comunismo libertário, o trabalho é uma atividade marginal”.
O trabalho já é, de fato, uma atividade marginal na teorização destes comunistas libertários. Segundo eles, o mundo do trabalho não é já o motor da revolução. O motivo é que a classe trabalhadora foi “aburguesada” e atualmente desatende a confrontação com os seus inimigos. Uma tese de certa extensão entre o esquerdismo mais despreocupado e superficial.
Sem sujeito revolucionário coletivo, o anarquismo acaba virando, explicitamente no texto, numa moral individual; quer dizer, uma solução no plano ideológico, uma proposta a-prática. Uma moral individual que, em todo caso, impulsaria a uma agregação sistemática de individualidades na constituição duma sociedade livre. Claramente, estes supostos são consoantes aos pressupostos ideológicos libertários referentes ao individualismo, ao indivíduo como anterior à própria sociedade e à sociedade como simples conjunto gregário submetido a um estado que a sobrevoa.
Uma crítica pormenorizada do livro requeriria bastante mais espaço, mais deixemo-lo aqui...
Se na Catalunha existem precedentes notáveis destas posições (El noi del sucre), na Galiza são relativamente inéditas. Mas existem. Misturam-se com todas essas facções que ajustaram contas com o marxismo: autônomos, ácratas e indivíduos post-algo. Aliam-se duma maneira estranha com o independentismo, como formando parte este dum movimento mais amplo que denominam “antagonismo”. Como se o nosso papel for o de sermos antagônicos não importa a respeito de que ou quem. O panorama resultante parece saído do tutti-frutti ideológico dos quadrinhos de Carlos Azagra. Um irracionalismo vexilologicamente vistoso.
Acho que não é uma postura demasiado realista. E nesta altura, ser realista é de importância vital. Não devemos defender apenas que “um outro mundo é possível”. Também devemos fazer que seja “provável”; e neste aspecto as utopias sobram. Devemos operar na realidade (na nossa realidade) com uma visão o mais objetivamente ajustada a ela do que for possível.
Contrariamente ao que opina o amigo Samuel Solheiro, devemos recuperar a cientificidade para a esquerda. Solheiro amostrava-se contrário a isto num artigo no que criticava (não sem razão) James Petras ou Justo de La Cueva. Mas são criticáveis pelo seu cientificismo ou pelas carências da sua cientificidade? A “esquerda esquizofrênica” não é uma alternativa. É a que atualmente existe.
Ligação do dia
Negres tempestes: coletivo libertário de Barcelona, co-editor do livro Anarquisme i alliberament nacional, que defende o anarco-independentismo.

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