Achega-se o 17 de maio, e como sempre, o pior do assunto é que não incomoda. E mais uma efeméride no que uns poucos (cada dia mais) sairemos à rua para defendermos uma língua digna, de projeção internacional absolutamente válida e veicular para todos os âmbitos da comunicação social na Galiza e em conexão com uma grande comunidade lusófona repartida em cinco continentes. Outros muitos (a maioria, temo-me) sairão na defesa duma língua hibridizada e hibridizável que apenas pode aspirar, nas palavras dum dos seus convocantes, “a equilibrar mínimamente a balança”. Uma balança na que sempre haverá dois pratos e na que a questão será saber cara a que lado se inclina o fiel.Somos o que fizeram de nós. Este língüicídio planificado, como o da administração otomana face o albanês descrito no Nicho da vergonha do escritor Ismail Kadare, onde um paisano chega a desgarrar-se lutando contra si próprio por não poder compor uma simples canção na sua língua, como se fazia outrora; este processo de aculturação anestesiado democraticamente por uma Espanha supostamente plural, que segue a ser uma, que se imagina grande, e que se acredita livre a costa de todos os que sob o seu domínio somos diferentes; esta infâmia, afeta e deforma os nossos nacionalistas até. Nacionalistas que chegam a professar um nacionalismo apoucado e submisso, que esperam normalizar a língua sem novas redes sociais de comunicação, apoiando-se nos sectores que a marginalizaram, sem violentar a constituição, sem incomodar os seus sócios de governo para finalmente sairem pela porta de pontinhas sem acordar papá.
O 17 de maio, e os que reivindicam esse dia, não incomodam. Incomoda o catalão e o basco. O catalão faz-se odiar pela sua perseverança. O basco é depreciado porque se teme. O galego, no entanto, apenas pode inspirar uma simpatia lastimosa, um paternalismo ferinte como o que se sente frente a um cadelo do que se sabe, não ocasionará moléstias. Não damos medo, não queremos ser uma ameaça, esse é o problema.
Assim, empresas anti-galegas como as de comunicação, somar-se-ão a festa sem qualquer rubor e sem gerar suspeitas sobre a sua linha editorial. Aquelas empresas que convocaram um concurso odioso (chamava-se “relatos de verán”?) no que perguntavam os premiados por que escreviam em galego; não fazendo o próprio com os premiados em espanhol. O pior de tudo é que os galardoados reconheciam a sua excentricidade nas respostas. “E um idioma muito lírico”, “é uma língua muito formosa” e demais tontarias pelo estilo. Eu sou dos que acredito que uma língua não é nem mais nem menos “lírica” ou “formosa” do que outras. Como se mede a beleza idiomática? Com que critério? Porém, gostaria de ser literariamente tão bom como o amigo Mário Regueira (por exemplo), apresentar-me a uma trapalhada de concurso como o anteriormente descrito e ganhá-lo. Simplesmente para poder contrariar todos com a minha resposta à pergunta do diabo. Que por que escrevo em galego?
-De fato, não sei. É uma língua feia e difícil. Demasiado complexa. Além disso, empregá-la só te provoca problemas. Mas é a minha língua.
Ligação do dia
Naturalmente, o blogue de adesão ao manifesto da AGAL pelo dia das letras de 2008. Mas como já está referenciado, engado o excelente Portal Galego da Língua, para quem ainda não o conhecer.
Vemo-nos na Alameda compostelã, o dia 18 às 12:00. Ou senão, o dia antes no concerto organizado pela Gentalha do Pichel para desfrutar com as novas canções de Ataque Escampe.



