sábado, 12 de maio de 2012

Anti-sistemas

Graças à mídia, todo o mundo sabe que Barcelona é um pólo de atração para "anti-sistemas". Suponho que é por isso que na capital do Principado da Catalunha se despregam uns dispositivos policiais de grande magnitude e com um caráter expeditivo que é já tristemente famoso.

Mas como é que isto chegou a ser assim? A ex-deputada e opinante profissional Pilar Rahola, num artigo recente no jornal nada avançado La Vanguardia, culpabiliza um setor da política que denomina pijoprogre (em português seria uma coisa assim como "mauricinho de esquerdas") e que se identificaria com a coligação ecossocialista  ICV-EU.  A presumível ambiguidade desta formação política face os "anti-sistemas" vem exemplificada numa célebre entrevista em 2007 à vereadora de Barcelona na altura, Imma Mayol. Nesta entrevista, a vereadora dizia simpatizar com o movimento okupa e ser "um pouco anti-sistema". A reação a esta entrevista por parte dos seus rivais políticos foi duma dureza tal que esclarecia as conotações negativas que levava associada o conceito.

Penso que não sempre foi assim. Por exemplo, em 9 de junho de 1999, Pilar Rahola visitava a Faculdade de Direito da Universidade Pompeu Fabra para defender a sua candidatura à prefeitura de Barcelona pelo extinto Partido pela Independência (PI). Segundo recolhe o diário Avui, Rahola definiu-se como uma pessoa de esquerdas, independentista e "com doses de rebelião anti-sistema". Os resultados do PI foram mais do que modestos e a formação dissolveu-se logo. Porém intuo que o fato de Rahola se caraterizar como possuindo "doses de rebelião anti-sistema" indica que, quando menos ela, não pensava que este qualificativo lhe pudesse comportar qualquer problema. De fato, não me consta que houvesse qualquer reação a estas declarações.

E aqui vai uma modesta hipótese: o termo "anti-sistema" não sempre teve a mesma significação. Há mais de dez anos, o qualificativo tinha conotações românticas de rebeldia juvenil. Aos poucos, "anti-sistema" foi empregando-se para rotular o ativismo que emprega nalgum grau a violência urbana. Aconteceu de maneira semelhante ao termo okupa: inicialmente na mídia tinha uma aura de idealismo utópico e sonhador... até que mudou a legislação em 1996. 

Seja como for, okupa implica umas determinadas posições sobre o mercado imobiliário, a autogestão ou os usos sociais do espaço público; por muito vagos ou díspares que puderem ser estes princípios dependendo de cada caso concreto. Um "comunista de Moscou" evoca uma ideologia concreta e até uma conspiração estrangeira que acocha as contradições da própria sociedade como produtoras de oposição política. O mesmo com o recente "anarquismo italiano", cujo curioso interesse por atentar na Catalunha é ainda um mistério que a mídia não ressolveu. Mas que demônios é um "anti-sistema"? O termo é tão amplo que serve precisamente para isso: para rotular e criminalizar a oposição ao sistema político-econômico vigente, justo quando este dá claros sintomas de não funcionar demasiado bem. A efetividade da difusão da rotulação deste presumível comportamento desviante vê-se nos slogans das manifestações do movimento 15M: "Não somos anti-sistemas, o sistema é contra nós". 

A falta dum estudo sério sobre o assunto, entretive-me observando numa hemeroteca digital o volumem de notícias ou artigos nos que aparecia o qualificativo desde 1999 até março de 2012, tanto com conotações positivas (linha azul) como com conotações negativas (linha vermelha). Os resultados apresentam uns indícios mais ou menos claros da tendência.

              
A mensagem ideológica desta rotulação é que o mal-estar pela situação econômica sempre é compreensível, mas não é consequência do sistema nem é legítimo rebelar-se contra ele.  

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Contra o futebol moderno

Esta é a semana do mal chamado "dérbi galego" entre o Celta de Vigo e o Desportivo da Corunha. À lógica rivalidade entre os dous times mais fortes do nosso País acrescentar-se-á toda uma série de episódios de localismo infame cuidadosamente fomentados por aqueles que logo condenariam qualquer expressão de violência no futebol. É inevitável perguntar-se sobre o papel do espetáculo futebolístico no seu contorno social.

Há uma certa fação de caráter progressista que abjura deste desporto atribuindo-lhe uma qualidade alienante, evasiva a respeito da realidade social. Esta atribuição mistura-se com todo tipo de recriminações sobre as quantidades monetárias que move o jogo ou o nulo compromisso dos jogadores com a localidade do time em contraposição com a passionalidade irracional da torcida; passionalidade que em ocasiões se traduz em enfrentamentos entre adeptos.

Todas estas recriminações são, em grande medida, justas. Contudo, concluir que o futebol tem um caráter alienante é uma generalização abusiva que diz mais sobre sobre aquilo do que se aliena que sobre o próprio futebol. A sociedade tem uma ampla oferta de elementos com os que a população se pode evadir: álcool, televisão-lixo, imprensa marrom, Internet, religião... Evade-se com o futebol quem quer.

Por outro lado, a acusação global contra o futebol ignora movimentos associativos entre as torcidas que lutam contra aqueles aspetos do desporto que a crítica destaca na sua impugnação. Sinaladamente, sobre aqueles que fazem referência à hegemonia do dinheiro sobre a realidade puramente desportiva ou identitária.

O futebol moderno

Recentemente caiu nas minhas mãos um livro escrito em 1967 polo jornalista desportivo argentino Dante Panzeri, que leva por título Fúbol, dinámica de lo impensado. Trata-se dum ensaio no que o jornalista defende a sua visão do jogo contra o que ele denomina futebol moderno. Segundo Panzeri, o que carateriza o bom futebol é que este é imprevisível. Para além da disposição táctica, o bom jogador transgrede os esquemas desenhados e surpreende ao rival mediante o emprego da sua espontaneidade e do controlo da bola. Neste senso, a distribuição dos jogadores nas diferentes linhas estaria ao serviço de maximizar as qualidades individuais do conjunto e o esquema táctico seria dalguma maneira orientativo, subjeito a contínuas mudanças por parte da própria dinâmica do jogo. O livro é uma louvança do jogador produto da marginalidade, rebelde, talentoso e instintivo.

Face este estilo de jogo, Panzeri observa a emergência do futebol moderno, o que qualifica como a chegada do "industrialismo" ao futebol. O primeiro sintoma é a multiplicação dos profissionais que vivem do futebol sem vestir de curto. Uns profissionais que chegam a superar em número aos que fazem futebol no campo (secretários técnicos, psicólogos, preparadores físicos, fisioterapeutas...). No campo, os sintomas deste novo futebol é a ausência de espontaneidade nos jogadores, estritamente subjugados às indicações técnicas do treinador. Umas indicações de marcado conservadorismo, de falta de iniciativa ofensiva ou de construção do jogo. Um jogo que sacrifica os jogadores polivalentes e aqueles elementos que dotam de beleza o desporto como os dribles ou as jogadas arriscadas. O paradigma deste futebol moderno seria o catenaccio do seu contemporâneo Helenio Herrera.

Panzeri mostrava-se pessimista sobre a evolução do jogo entendendo que a trajetória do futebol moderno vai parelha à modernização capitalista, sendo um produto mais do seu tempo.

Futebol pela liberdade

Um outro livro que teve a oportunidade de ler é o do sociólogo catalão Ramón Usall, Futbol per la llibertat. Sem demasiadas pretensões teóricas, o livro é mais um compêndio de times que historicamente condensaram diversas reivindicações sociais ou nacionais contestando a visão dele como passatempo conservador. Efetivamente, são numerosos os exemplos de times que, para além do puramente esportivo, sublimavam protestas civis que talvez não pudessem expressar-se doutro jeito. Desde o Wunderteam de Mathias Sindelar e a sua significação na oposição ao nazismo, até as ligações entre o Celtic de Glasgow e o republicanismo irlandês, passando pelo esquerdismo da torcida do St. Pauli e o Livorno, ou a reivindicação LGTB dos New York Ramblers; o futebol é um veículo ótimo para a visibilidade das contradições sociais existentes.

Mas tampouco é necessário acudir a casos de certo exotismo. Cada ano, os torcedores e torcedoras que desgraçadamente se enfrentarão este domingo, são capazes de colaborar e manter viva a Seleção Galega contra o boicote das instituições e o desinteresse duma mídia que apenas se preocupou do combinado nacional quando jogava sob o patrocínio da Junta para evitar que o seu nome fosse "Galiza". O ativismo das Siareiras Galegas é, neste senso, reconfortante e até mereceu atenção fora do País.

Luta de classes sublimada

Para além destes exemplos, a crise no futebol incentivou experiências coletivas de interesse que nalguma medida contestam a lógica do negócio presente no desporto. A generalização das sociedades anônimas desportivas como formas jurídicas de gestão dos times e os recentes problemas econômicos do futebol induzidos por todo tipo de práticas especulativas, aprofundaram a tradicional hostilidade que sentem os "fundos" a respeito da "tribuna" burguesa e acomodada. Na divisão entre estas duas formas de viver o futebol, a torcida vê-se obstaculizada na sua compreensão do jogo como uma festa de afirmação coletiva: proibição da pirotecnia, proibição do álcool, supressão das localidades para ver o futebol em pé, estabelecimento de horários em função dos diretos televisivos, etc.

O paroxismo deste estranhamento do futebol são as operações de compra dum clube por parte dalgum grupo de investimento ou por parte dalgum magnate absolutamente alheio à história e o contexto social do clube. Não em poucas ocasiões a gestão resultante acaba com o clube ao borde da bancarrota ou na efetiva liquidação deste.

Contra o estranhamento do clube que vivem as torcidas, ora existem movimentos de reapropriação do time quando este se acha numa situação difícil, ora de recriação quando o time faleceu devido à uma má gestão, ora de oposição quando a recuperação do time é inviável e cria-se um outro que assuma o papel deste na comunidade. Aos exemplos conhecidos do FC United of Manchester ou o AFC Wimbledon, haveria que acrescentar os múltiplos casos referenciados no dossier do número 5 da revista Panenka.

O futebol como celebração do "synoikismos"

Além do maior ou menor atrativo do jogo, o interesse do futebol reside na geração de identidade coletiva através da identificação com o clube. Neste senso, o futebol é como uma moderna celebração do "synoikismos" (morar juntos), uma lembrança semanal da nossa pertença a uma realidade urbana ou social que no quotidiano é imperceptível. Cada domingo, pessoas díspares agrupam-se sob umas mesmas cores e atuam explicitamente como sociedade, evidenciam a pertença comum a uma localidade ou bairro por cima das numerosas diferencias que os podem separar individualmente. Eis a importância da defesa das pequenas equipas locais frente a arrogância dos grandes times despersonalizados.

A comemoração do "vivermos juntos", como tudo, pode-se fazer com o melhor ou com o pior de nós. O repto, no futebol como em qualquer outro âmbito, é salvar o bom senso social e impregnar o que empreendemos coletivamente com as práticas e os valores duma sociedade melhor.

sexta-feira, 23 de março de 2012

A utilidade dos piquetes

Ontem houve greve em Portugal e transcendeu o emprego da violência por parte da GNR. Ignoro qual é a percepção popular e a reação da mídia lá. Se semelhar à de aqui, suponho que agora estarão a falar da intervenção em termos de proteção do direito das pessoas que quiseram trabalhar contra a atitude duns piquetes agressivos que pretendiam vulnerá-lo.

No Estado Espanhol faltam ainda alguns dias para a greve geral e a mídia ou a patronal já falam na possível violência dos piquetes. Em 10 de março, o governo espanhol disse que empregaria a polícia "para que no 29 -M trabalhe quem quiser".

Prevê-se um dia de greve duro, com incidentes e detenções. Não é o melhor presságio para uma greve que, para além das dificuldades próprias duma convocatória destas características, parte com o descrédito mais ou menos generalizado das duas principais centrais a nível estatal. Com efeito, UGT e CCOO constituem um modelo sindical pouco ambicioso, para lá de terem um trajetória bastante discutível em muitos pontos. Cumpriria lembrar que não são os únicos convocantes, nem sequer foram os primeiros em chamar à greve.

Ademais, a posição da mídia e do governo não é precisamente neutral nesta matéria. As vozes de alerta sobre a possível violência dos piquetes não se realizam em função da possível violação de direitos dos furadores. A mídia singelamente está em contra da greve porque está a favor da reforma laboral, porque está favor dum determinado modelo econômico, etc.

Contudo, o argumento de que a persuasão mais ou menos agressiva dos piquetes viola o direito dos furadores, coalha bastante. Proposto um cenário de greve, cada pessoa trabalhadora tem dous direitos: o de fazer greve e o de ir trabalhar. Neste senso, intentar impedir a entrada dos "companheiros" ao centro de trabalho estaria violando um direito individual e por isso os piquetes apenas deveriam ser informativos que é o que recolhe a Constituição ... Não é?

Não é. De fato, o próprio conceito de piquete informativo é uma ideia bastante absurda. A convocatória de greve saiu nos principais meios de comunicação e o contido da reforma laboral que a provoca, com vieses evidentes, também. Quase todo o mundo sabe que a reforma laboral impõe umas condições pouco ou nada favoráveis aos interesses da classe trabalhadora, e quase todo o mundo sabe da convocatória da greve; portanto quem decidir trabalhar esse dia, sabe o que está a fazer. Por isso, são necessários os piquetes: para impedi-lo.

Reconhecer a necessidade dos piquetes nestes termos soa duro, porque implica assumir que se darão situações de tensão e confrontação. Poderia aludir ao fato de que o punhado de direitos coletivos e individuais que ainda conservamos (e os que perdemos) conseguiram-se mediante a luta de classes e não recorrendo a esse lindo direito de pegar no batente o dia da greve. Poderia dizer que por vezes há questões coletivas duma importância tal que fazem necessário passar por cima de determinadas opções individuais. Mas tudo refere-se a um plano valorativo ou ideológico. Soa a Marx, luta de classes e todo isso. Alguém poderia pensar que, apesar de tudo, os direitos individuais são fundamentais numa democracia digna de tal nome e estão por cima de tudo.

Assim que intentarei expor o assunto o mais pedagogicamente possível. Para isso, empregarei a perspectiva da eleição racional com a intenção de desenvolver a situação: há a preparação duma ação coletiva (neste caso, uma greve), há um bem público que se pretende conseguir com a ação coletiva (neste caso, paralisar uma reforma laboral lesiva para a classe trabalhadora) e temos um indivíduo racional (neste caso, uma pessoa assalariada). O nosso trabalhador (desde agora Cláudio), que busca racionalmente satisfazer as suas necessidades, sabe perfeitamente que a reforma laboral não lhe interessa em absoluto. Assim que pode optar por secundar a greve, opção com uma série de custos e duas possibilidades. Nos custos obviaremos hipotéticas represálias empresariais (que por outra parte existem), porque são ilegais e denunciáveis (para assessorar-se sobre isto, também existem os sindicatos). Há uma despesa que é ineludível: a perda do salário correspondente às horas não trabalhadas. O Cláudio tem um salário galego médio por uma jornada completa, polo que a greve suporá um custo de 59€. A primeira possibilidade será que a greve for bem sucedida: o ganho de paralisar a reforma laboral excederá de sobra o custo que comportou. A outra possibilidade é que a greve não tenha êxito. Nesse caso, Cláudio perderá 59€.

A segunda opção para o Cláudio é traicionar os companheiros e os próprios interesses tornando-se um furador. Esta possibilidade tem dous resultados: o primeiro é que a greve não tenha êxito. Neste caso, Cláudio não perdeu nada. A outra possibilidade é a que constitui uma injustiça: apesar da sua ausência, pode que o resto de trabalhadores e trabalhadoras do Estado Espanhol secundem a greve e ista seja tão exitosa que paralise a reforma. A paralisação da reforma é um bem público; quer dizer, o seu desfrute não é exclusivo daquelas pessoas que brigaram por consegui-la. Assim que esta possibilidade beneficiaria o Cláudio sem que este tivesse investido nada.

Recapitulando, Cláudio tem quatro resultados possíveis:
  • Ir à greve e ganhar = conserva direitos laborais -59€
  • Ir à greve e perder = -59€
  • Não ir à greve e que esta perda = 0€
  • Não ir à greve e que esta ganhe = conserva direitos laborais.
Desde o modelo da eleição racional, Cláudio terá mais incentivos individuais para traicionar a ação coletiva, ainda que puder concordar com o fundo da protesta. Qualquer um poderá dizer que, de todos modos, as duas opções nas que a greve fracassa comportam uma série de custos sérios derivados da facilidade com a que a parte empresarial pode mudar as condições de trabalho do Cláudio ou até demiti-lo sob a nova reforma laboral; e que nesse caso pagaria a pena participar, porque 59€ supõem um custo irrisório face o benefício que se derivaria duma greve vitoriosa. Insisto neste ponto, Cláudio busca individual e racionalmente o melhor para si. Sabe que uma ação coletiva trunfante não depende apenas dele e que esta possibilidade, dalguma maneira, é remota. Sabe também que obterá igualmente o benefício duma greve bem sucedida ainda não participando nela. A lógica é esperar esta última eventualidade. O verdadeiro problema, é que Cláudio não é o único em pensar assim. Outros trabalhadores e outras trabalhadoras fazem o mesmo cálculo...

É necessário matizar que o modelo da eleição racional é precisamente isso, um modelo, um esquema para simplificar e analisar determinados aspetos sociais. Um dos problemas deste modelo é que tem sérias dificuldades para explicar a ação coletiva; já que sabemos que, de todas maneiras, haverá bastante gente (suficiente ou não) na greve. Mas sinala um problema real: face à consecução da provisão dum bem público, as pessoas tendem à racionalidade individual consistente intentar gozar deste sem contribuir aos custos derivados da cooperação, em oposição à racionalidade coletiva que sinala na direção contrária. Naturalmente, os resultados coletivos desta tendência são desastrosos. Para Cláudio e para o resto.

O cientista social norte-americano Mancur Olson sinalou duas possíveis compensações para o chamado problema da ação coletiva. A primeira compensação seriam os benefícios seletivos destinados as pessoas que brigam pola provisão do bem público. No caso duma greve não tem muito sentido, já que dificilmente se pode premiar à multidão que a secunda. Queda a outra compensação: a coerção. Se não é possível premiar a quem colabora, a alternativa é coerir a quem deserta. A coerção não necessariamente implica um ato de violência física. Pode referir-se a gerar descrédito do não-colaborador, boicotar os seus interesses ou qualquer outra iniciativa que grave a atitude insolidária, que agregue uns custos ao benefício individual de não cooperar.

É triste que seja assim? Pode. Mas é a vida. Ou a melhor dizer, é a sociedade. A sociedade está atravessada por uma série de relações de força. Entre elas destaca a de quem produz ou empresta serviços, e quem vive da produção e os serviços daqueles. A legislação laboral é plasmação da oposição de forças entre estes dous pólos. Dado que uma das partes tem nas suas mãos o bem-estar e a subsistência da outra, não é uma relação equitativa. Na atualidade, a burguesia tem a capacidade de desequilibrar ao seu favor o conjunto das normas que protegem o trabalho. No contexto da necessidade duma intervenção coletiva da classe trabalhadora para impedi-lo, o direito individual a trabalhar esse dia é um capricho. A campanha da mídia, a proteção da polícia aos furadores e a apresentação da greve como um direito individual opcional, apenas podem produzir uns resultados desastrosos para o conjunto dos assalariados e das assalariadas. Não parece que nos podamos permitir isso.

domingo, 18 de março de 2012

O que não explica Kony 2012

Recentemente, a organização sem fins lucrativos Invisible Children Inc, difundiu de forma viral um documentário chamado Kony 2012 enquadrado na campanha do mesmo nome. Como é previsível num caso assim, o contido demagógico do documentário explora elementos habituais de propaganda, empregada nesta caso para sensibilizar a audiência sobre um tema inicialmente nobre: a denúncia do emprego de crianças como soldados no Exército de Resistência do Senhor (ERS), grupo paramilitar do norte de Uganda. O filme de meia hora está narrado na primeira pessoa de Jason Russell, diretor da filmação e ativista de Invisible Children Inc. Ele expõe a sua relação pessoal com Jacob, vítima dos abusos da organização armada. Também explica ao seu próprio filho o trabalho que desenvolve para levar à justiça internacional Joseph Kony, líder do ERS e considerado responsável dos abusos a crianças cometidos por esta organização.

Uma vez que a audiência recebeu o impacto emocional do relato de Jacob, o documentário lança a sua proposta de campanha: trata-se de que a gente "faça famoso Joseph Kony" para visibilizar a problemática das crianças-soldados e comprometer os Estados Unidos na efetiva captura deste durante o ano 2012.

Não se pretende aqui minimizar os graves crimes cometidos pelo ERS. Tampouco criticar os dados enviesados do filme: há quem afirma que o potencial do ERS foi "inflado" já que atualmente não conta com muitos efetivos; ou que Joseph Kony e o seu exército nem sequer estão já na Uganda. A principal crítica que pode realizar a esta iniciativa refere-se ao papel que se reserva aos EUA. Não se reclama a sua intervenção militar porque, como diz o próprio documentário, essa intervenção já existe. De fato, tropas dos EUA levam anos despregados na região, atualmente sob o comando da AFRICOM. O que se reclama em Kony 2012 e realizar uma espécie de ativismo naïf que mantenha viva a atenção sobre o caso de Joseph Kony para que os EUA não desistam no seu apoio ao exército da Uganda; eventualidade que, seja como for, não parece que vaia acontecer.

Este papel redunda na imagem dos EUA como guardião da humanidade; como encarnação duns valores que os legitimam para intervir militarmente em qualquer parte do globo terráqueo em que estes estiverem em perigo. O que, dito doutra maneira, insiste na ideia de que os EUA (ou qualquer outro governo do mundo) podem iniciar uma intervenção militar por motivos elevados e não por questões bastante mais prosaicas.

Na representação desse mundo ideal no que os EUA são uma espécie de São Jorge é preciso um dragão, uma encarnação do mal. Neste caso é a figura de Joseph Kony. Não se me interprete mal: Joseph Kony é responsável de muitas atrocidades. O que impede ver a proposta maniqueia do documentário, é que Kony e o ERS também são filhos da sua sociedade.

Uganda, como muitos outros estados da África, é uma sociedade multiétnica. Desde a sua independência em 1962; o país está polarizado entre a maioria ganda do sul e a minoria acholi no norte. O sul concentra as principais atividades e os recursos econômicos da Uganda, no entanto o norte é a região rural subdesenvolvida que vem realizando o papel de colônia interior. Apesar desta marginalização do norte, o exército da Uganda recrutava o seu pessoal principalmente na área setentrional do país; o que dá uma ideia da dificuldade para estabelecer um governo politicamente estável.

Com efeito, a história de Uganda é uma sucessão de governos instáveis e de carácter autoritário, com o difícil equilíbrio entre norte e sul de fundo. As presidências de Obote (1980-1985) e Okello (1985-1986) foram favoráveis aos acholi é muito duros contra a oposição do sul. A administração entra em colapso e em 1986 toma o poder o Exército de Resistência Nacional de Yoweri Museveni. A hegemonia política passa ao sul e Uganda vira um aliado dos EUA na zona.

A vitória de Museveni comporta a repressão e a depuração de nortistas, pelo que nascem movimentos políticos e militares dos acholi como resposta. Estes movimentos de reivindicação étnica têm um forte componente messiânico baseado no cristianismo da região. Uma das suas últimas expressões é o ERS.

Dada a pressão do governo ugandês, o ERS adotou uma política de terror para manter fiel à população setentrional com abusos como os relatados pelo documentário. Para além desta estratégia terrorista, também contou com o apoio do governo de Sudão. Este apoio dum governo de orientação islamista a um grupo sectário cristão só é aparentemente paradoxal: é a resposta pelo apoio da Uganda aos independentistas do Sudão do Sul organizados no Exército Popular de Libertação do Sudão. Uma organização sobre a que existem acusações bastante semelhantes às que se deitam sobre o ERS.

Neste senso, o governo ugandês tampouco foi precisamente escrupuloso no respeito aos direitos humanos na sua luta contra o ERS e as milícias nortistas. Na sua participação no conflito, o governo é responsável do deslocamento forçoso de populações, queima de aldeias, confinamento em campos de concentração, etc. O rol do governo no conflito gerou uma das maiores crises humanitárias do planeta. Com a escusa de combater grupos como o ERS, o exército da Uganda interviu na chamada Grande Guerra de África (1998-2003) ocupando o nordeste da República Democrática do Congo. Durante esta ocupação, não só explorou de maneira ilegítima os recursos mineiros deste país, senão que se viu envolvido junto com o seu aliado do Movimento para a Libertação do Congo em crimes de guerra como assassinatos, estupro massivo de mulheres e recrutamento forçoso de crianças...

Não é estranho que o governo da Uganda viole direitos humanos fora das suas fronteiras ou no cenário do conflito contra o ERS. O governo de Museveni (26 anos na presidência) está baseado numa espécie de fundamentalismo cristão. Esta singular ideologia tem-se expressado em iniciativas tais como o intento de castigar com a pena de morte a homossexualidade. Ainda não se aplicou e a homossexualidade apenas custa a prisão perpétua... Organizações de direitos humanos também denunciam a escassa proteção legal para evitar a violência contra as mulheres. Na areia política, o regime não permitiu a competência entre partidos até 2001. Desde então, os processos eleitorais realizam-se em base a um "singular" sistema de votação que beneficia descaradamente à força governamental (o Movimento de Resistência Nacional) e num clima de violência e intimidação à oposição política. Lembremo-lo: é a este governo a quem os EUA tem que dar apoio militar para capturar Kony, segundo o documentário.

Naturalmente, o documentário ignora todos estes aspetos históricos e políticos da sociedade ugandesa. Também ignora os atores locais e as iniciativas autóctones que trabalham no senso de desmilitarizar a região e empoderar as vítimas do conflito. Desta maneira, Uganda é apenas o cenário exótico, selvagem até, sobre o que ativistas norte-americanos podem projetar as suas fantasias neocoloniais de resgate a africanos desvalidos. Fantasias que servem ademais para acochar os interesses materiais que há atrás da militarização do Corno de África.