Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

É amarga, mas é minha

Achega-se o 17 de maio, e como sempre, o pior do assunto é que não incomoda. E mais uma efeméride no que uns poucos (cada dia mais) sairemos à rua para defendermos uma língua digna, de projeção internacional absolutamente válida e veicular para todos os âmbitos da comunicação social na Galiza e em conexão com uma grande comunidade lusófona repartida em cinco continentes. Outros muitos (a maioria, temo-me) sairão na defesa duma língua hibridizada e hibridizável que apenas pode aspirar, nas palavras dum dos seus convocantes, “a equilibrar mínimamente a balança”. Uma balança na que sempre haverá dois pratos e na que a questão será saber cara a que lado se inclina o fiel.
Somos o que fizeram de nós. Este língüicídio planificado, como o da administração otomana face o albanês descrito no Nicho da vergonha do escritor Ismail Kadare, onde um paisano chega a desgarrar-se lutando contra si próprio por não poder compor uma simples canção na sua língua, como se fazia outrora; este processo de aculturação anestesiado democraticamente por uma Espanha supostamente plural, que segue a ser uma, que se imagina grande, e que se acredita livre a costa de todos os que sob o seu domínio somos diferentes; esta infâmia, afeta e deforma os nossos nacionalistas até. Nacionalistas que chegam a professar um nacionalismo apoucado e submisso, que esperam normalizar a língua sem novas redes sociais de comunicação, apoiando-se nos sectores que a marginalizaram, sem violentar a constituição, sem incomodar os seus sócios de governo para finalmente sairem pela porta de pontinhas sem acordar papá.
O 17 de maio, e os que reivindicam esse dia, não incomodam. Incomoda o catalão e o basco. O catalão faz-se odiar pela sua perseverança. O basco é depreciado porque se teme. O galego, no entanto, apenas pode inspirar uma simpatia lastimosa, um paternalismo ferinte como o que se sente frente a um cadelo do que se sabe, não ocasionará moléstias. Não damos medo, não queremos ser uma ameaça, esse é o problema.
Assim, empresas anti-galegas como as de comunicação, somar-se-ão a festa sem qualquer rubor e sem gerar suspeitas sobre a sua linha editorial. Aquelas empresas que convocaram um concurso odioso (chamava-se “relatos de verán”?) no que perguntavam os premiados por que escreviam em galego; não fazendo o próprio com os premiados em espanhol. O pior de tudo é que os galardoados reconheciam a sua excentricidade nas respostas. “E um idioma muito lírico”, “é uma língua muito formosa” e demais tontarias pelo estilo. Eu sou dos que acredito que uma língua não é nem mais nem menos “lírica” ou “formosa” do que outras. Como se mede a beleza idiomática? Com que critério? Porém, gostaria de ser literariamente tão bom como o amigo Mário Regueira (por exemplo), apresentar-me a uma trapalhada de concurso como o anteriormente descrito e ganhá-lo. Simplesmente para poder contrariar todos com a minha resposta à pergunta do diabo. Que por que escrevo em galego?
-De fato, não sei. É uma língua feia e difícil. Demasiado complexa. Além disso, empregá-la só te provoca problemas. Mas é a minha língua.
Ligação do dia
Naturalmente, o blogue de adesão ao manifesto da AGAL pelo dia das letras de 2008. Mas como já está referenciado, engado o excelente Portal Galego da Língua, para quem ainda não o conhecer.
Vemo-nos na Alameda compostelã, o dia 18 às 12:00. Ou senão, o dia antes no concerto organizado pela Gentalha do Pichel para desfrutar com as novas canções de Ataque Escampe.

Domingo, 11 de Maio de 2008

Quais são os delitos de Carlos?

Agora que nos assalta a horrível notícia de que o amigo e preso político Carlos Cela se véu na obriga de recorrer à greve de fome para fazer respeitar os seus direitos penitenciários, impõe-se o dever de falar no seu caso. Embora, na realidade, sempre convém falar destes casos para que afinal não prevaleça a unilateral e distorcida versão oficial.
Carlos Cela foi detido o 23 de janeiro do presente ano no bairro corunhês da Agra do Orção, dentro duma operação na que deteriam a outras quatro pessoas em todo o estado espanhol; entre elas, um outro galego conhecido como o “Che”. Este último foi o único que ficou em liberdade sob fiança pelo seu estado de saúde. O resto fica em diferentes prisões espanholas na espera do seu processo.
Desde o começo, a maquinaria propagandística das diferentes empresas de comunicação ativou-se sendo especialmente cruel com Carlos e a sua família, que são descritos como uma “saga de terroristas”. De Josefa Seoane, mãe do Carlos, diz-se que é “uma importante ideóloga” dos GRAPO que teria “inculcado” os seus princípios ideológicos aos descendentes. Também fizeram referência aos dois irmãos presos pela sua ligação com os GRAPO ou o PCE(r). O que não dizem é que, de fato, a família Cela Seoane estava submetida a uma vigilância pouco ortodoxa (democraticamente falando) e a uma culpabilização prévia , como se desprende dum informe da Brigada Provincial de Informação de Barcelona com motivo dum interrogatório a um anarquista catalão em 2003. Obvia-se também sinalar que Jesus Cela, irmão maior de Carlos e vítima do GAL-verde em 1990, devia estar livre na atualidade com a constituição na mão; mas fica preso pela alucinante “doutrina Parot” numa “cadeia perpétua” encoberta.
O que sim reproduzem, afortunadamente, são determinadas declarações que nos ilustram a grande base do caso. Segundo fontes da Guarda Civil consultadas pela Agência Efe, “presumivelmente, com esta operação, impedir-se-ia o ressurgimento células ou comandos”. Quer dizer, que os detidos não constituíam, de fato, qualquer “célula ou comando”. O qual não é estranho, nos registros policiais não toparom qualquer arma nem sustância explosiva. Manuel Ameijeiras, delegado (colonial) do governo em Galiza, afirmou que os detidos “pretendiam reconstruir algum tipo de operativo supostamente relacionado com a banda terrorista”; embora reconhecesse que “não há estrutura estável”. No mesmo senso fala esse gangster do ministério de interior que é Rubalcaba. Interrogado pelo assunto dos GRAPO respondeu que “não têm nesta altura estrutura clandestina porque foram desarticulados em junho de 2007, nem nenhum comando operativo”. A pergunta é lógica: se foram desarticulados em junho de 2007, por que estas detenções em janeiro de 2008? “Quedavam alguns membros legais”. O que é um membro legal? Suponho que segundo a doutrina da Lei de Partidos, qualquer militante do PCE(r) ou ativista solidário do SRI (ou qualquer membro de Batasuna ou de Segi ou, proximamente, de Izquierda Castellana e Yesca) é paradoxalmente membro legal dalguma coisa ilegal, pela que pode ir a prisão simplesmente porque a legalidade vigente assim considera estas organizações. Que o PCE(r) seja um partido comunista que se dedica (ou pretende dedicar-se) à política, que o SRI seja um organismo anti-repressivo que se dedica à assistência aos represaliados e os GRAPO a única organização que realiza uma atividade armada e a reivindica; não é óbice para fazer indistinção entre os três e metê-los na mesma saca.
Também não queda clara como é que medem intenções, pretensões e demais ações futuríveis. Apenas tenho constância disso na fantasia futurista de Philip K. Dick levada ao cinema por Steven Spielberg, “Minority report”. Naturalmente, é uma história de ficção científica e suponho que os sistemas judiciais se seguirão baseando na avaliação dos atos criminosos já cometidos.
Tendo em conta estes elementos, a "alegria" que Quintana expressou na altura pela detenção destes "indesejáveis" viola aquele princípio de Groucho Marx segundo o qual, é melhor calar e parecer imbécil do que falar e despejar qualquer dúvida.
A situação agora é a que é. Carlos iniciou uma greve de fome para ser recluido junto doutros presos políticos e não ser equiparado aos presos comuns. Porque Carlos não é já um preso comum. Está preso sem sentença à espera da entrega das diligências policiais, quer dizer, preso antes de que se tenham avaliado as supostas provas do imaginado crime. Esta espera, com independência de se é culpável ou inocente, pode prolongar-se durante quatro anos. Duração que cumprirá numa prisão a muita distância do seu domicílio, contravindo as leis neste aspecto. Nesta prisão aplicará-se-lhe um regime penitenciário de exceção, regime não reconhecido pela legalidade e que não se aplica aos denominados presos comuns. Afinal julgarão Carlos e, para além da concreção das possíveis imputações, apenas poderão demonstrar que assiste desde uma militância civil a um coletivo de presos entre os que se acham os seus próprios irmãos. Esses são os delitos de Carlos: ser ativamente solidário e apelidar-se Cela Seoane.
Ligação do dia
Blogue da campanha pela liberdade de Carlos Cela.

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Que volen aquesta gent?

Dizia a canção catalã “o que querem esta gente que batem na madrugada?”. Seica dizia Churchill que “democracia é que batam na porta às 6 da manhã e tenhas a absoluta certeza de que será o leiteiro”. O dia 28 do mês passado à manhã, Francesc Argemí, mais conhecido como Franki de Terrassa, foi detido sem prévio aviso em cumprimento da condena de 2 anos e 7 meses, imposta no 2005, por ter presumivelmente dependurado uma bandeira espanhola do seu concelho com motivo das festas locais de 2002, imputação reforçada por um suposto atentado contra a autoridade e desordens públicas. A sua advogada apresentou vários recursos a instâncias espanholas que foram denegados e, na atualidade, estava pronta a apresentar um recurso no tribunal de Estrasburgo. O fundamento destes recursos é, como tem defendido o próprio Franki, que não existem provas que situem o acusado no lugar dos fatos nem que demostrem a sua participação neles.
É igual. Que nestas alturas, uma pessoa tenha de ingressar em prisão por dependurar um farrapo (por muita carga simbólica que este tiver, não deixa de ser isso: um farrapo) e passar lá 2 anos e muito parece, quando menos, duvidosamente democrático. Assim vão as coisas por cá.
Afortunadamente, boa parte da sociedade catalã é bastante sensível a estas questões. Hoje mesmo, os deputados Oriol Pujol (CiU), Carod Rovira e Puigcercós (ERC) solicitarom a sua excarceração. Carod disse que “há uma desproporção evidente que apenas serve para evidenciar a fragilidade dum estado que necessita sobre-proteger os seus símbolos a golpe de sentença judicial”. ICV apenas solicitou a retirada do delito de ultraje à bandeira; no entanto PSC e PP guardarom um esperado e cúmplice silêncio.
Também no mundo da comunicação e da cultura erguerom-se vozes críticas contra este encarceramento. O filósofo Josep Maria Terricabras disse que este tipo de condenas fazem que a justiça neste país seja um “problema”. O escritor Vítor Alexandre qualifica este processo como uma “repressão ideológica (...) destinada a intimidar a sociedade por médio da coação e o abuso de poder”. Critica também “a colaboração inflamada de muitos catalães situados em lugares de poder”, em clara referência a ICV e Joan Saura. Deste último diz que está “preocupado pela repressão ideológica chinesa no Tibete”, mas se amostra “indiferente com a repressão espanhola na Catalunha. Já se sabe, as causas, quanto mais longínquas, menos comprometidas ”. O músico Joan Reig vê nestes casos uma vingança pela queima de fotos do rei, no outono passado. Finalmente, o jornalista Jordi Basté afirma com dureza que havendo delitos graves que quedam impunes, “Franki tem de pagar umas culpas, evidentemente, e aqui todos de braços cruzados. Esperando que chova, esperando o dinheiro prometido do financiamento, esperando que o Barça marque um golo e esperando qual será a próxima que nos marcarão pela esquadra”.
Vendo-o um pouco de longe, faz inveja o compromisso de boa parte da intelectualidade do Principado com umas mínimas noções de justiça. Será possível alguma vez na Galiza?
Ligação do dia
Página da campanha pela liberdade do Franki.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Corpos estranhos

Para entreter-me durante uma viagem, o bom amigo C.L. deixou-me um livro de certo sucesso no Principado da Catalunha. Trata-se de Anarquisme i alliberament nacional, da editorial Virus. O volume recolhe diversos textos libertários que propõem uma síntese impossível entre o anarquismo e a luta pela independência dos Países Catalães. E digo o de impossível não porque estiver fechado a qualquer tipo de contributos que fortaleçam o independentismo no quadro ibérico, venham de onde vierem. Digo-o porque, em favor dos nossos interesses, os contributos devem ser-nos válidos, úteis para a luta. Temo-me que a obra dos anarco-indepes não vai neste caminho.
Por um lado, existe uma crítica interessante do “estatalismo” do anarquismo espanhol do que subscrevo pontos e vírgulas. Com efeito, o internacionalismo dalguns “apátridas” detém-se suspeitosamente nos Pirineus e no campo de Gibraltar. A sua defesa dos subalternos com freqüência não vai acompanhada dum respeito pelas línguas subalternas à oficialidade espanhola. E assim por diante...
Por outro, chega o momento de atacar o “estatismo” dos independentistas. E a crítica é basicamente essa: aspiram a criar um estado. Sei que não devia surpreender-me, ao fim e ao cabo, são anarquistas. Porém propondo uma confederação livre para o quadro dos Países Catalães esquecem que o mundo, nesta altura quando menos, organiza-se em estados. Este é um detalhe que eu acho dalguma relevância.
Há mais. A visão do estado ou dos estados, sendo como são instituições complexamente suspeitosas, é unidimensional e caricaturesca. A escola é apenas um lugar para ingressar no sistema e adotar as suas pautas de condutas, os corpos repressivos apenas estão para manterem a ordem, a prisão e o manicômio apenas estão para enclausurarem dissidentes, etc. Ignoro que aparelhos alternativos ou instâncias impulsionará a sociedade futura para a socialização primária, não se especifica. Devo supor que nesta sociedade feliz, não será necessária qualquer política de segurança pública. Não será então necessárias as prisões onde na atualidade, para além dos chamados presos políticos, enclausuram presumíveis agressores sexuais, ladrões e criminosos que nunca poderiam passar pela categoria de “dissidentes”. Também não se sabe que alternativa se propõe. Como medida prévia, os anarquistas atirarão para baixo os muros dos presídios e já se verá.
É que, com bom critério, os anarquistas não querem “prometer o céu onde todo o mundo será feliz e bom”, recriminação que lançam aos marxistas comparando-os, no entanto, com o cristianismo. Não obstante, o céu anarquista assoma indiscreto nalgumas afirmações, como a proposta de organização social em base a federações sucessivas desde entidades populacionais menores até as maiores (o que seria isso senão um tipo de estado inclusivo?), ou quando se defende que “no comunismo libertário, o trabalho é uma atividade marginal”.
O trabalho já é, de fato, uma atividade marginal na teorização destes comunistas libertários. Segundo eles, o mundo do trabalho não é já o motor da revolução. O motivo é que a classe trabalhadora foi “aburguesada” e atualmente desatende a confrontação com os seus inimigos. Uma tese de certa extensão entre o esquerdismo mais despreocupado e superficial.
Sem sujeito revolucionário coletivo, o anarquismo acaba virando, explicitamente no texto, numa moral individual; quer dizer, uma solução no plano ideológico, uma proposta a-prática. Uma moral individual que, em todo caso, impulsaria a uma agregação sistemática de individualidades na constituição duma sociedade livre. Claramente, estes supostos são consoantes aos pressupostos ideológicos libertários referentes ao individualismo, ao indivíduo como anterior à própria sociedade e à sociedade como simples conjunto gregário submetido a um estado que a sobrevoa.
Uma crítica pormenorizada do livro requeriria bastante mais espaço, mais deixemo-lo aqui...
Se na Catalunha existem precedentes notáveis destas posições (El noi del sucre), na Galiza são relativamente inéditas. Mas existem. Misturam-se com todas essas facções que ajustaram contas com o marxismo: autônomos, ácratas e indivíduos post-algo. Aliam-se duma maneira estranha com o independentismo, como formando parte este dum movimento mais amplo que denominam “antagonismo”. Como se o nosso papel for o de sermos antagônicos não importa a respeito de que ou quem. O panorama resultante parece saído do tutti-frutti ideológico dos quadrinhos de Carlos Azagra. Um irracionalismo vexilologicamente vistoso.
Acho que não é uma postura demasiado realista. E nesta altura, ser realista é de importância vital. Não devemos defender apenas que “um outro mundo é possível”. Também devemos fazer que seja “provável”; e neste aspecto as utopias sobram. Devemos operar na realidade (na nossa realidade) com uma visão o mais objetivamente ajustada a ela do que for possível.
Contrariamente ao que opina o amigo Samuel Solheiro, devemos recuperar a cientificidade para a esquerda. Solheiro amostrava-se contrário a isto num artigo no que criticava (não sem razão) James Petras ou Justo de La Cueva. Mas são criticáveis pelo seu cientificismo ou pelas carências da sua cientificidade? A “esquerda esquizofrênica” não é uma alternativa. É a que atualmente existe.
Ligação do dia
Negres tempestes: coletivo libertário de Barcelona, co-editor do livro Anarquisme i alliberament nacional, que defende o anarco-independentismo.